João queria mesmo ver a filha. Para convencer a ex-mulher, inventou uma viagem de 15 dias a Boliqueime – tinha que despedir-se. Foi buscá-la à Escola da Ermida às 17h30. Surpreendida, a criança correu para ele. Saltitou até ao apartamento que tão bem conhecia – vivera grande parte da sua vida naquele quarto andar, em São Mamede de Infesta, Matosinhos.
Por aqueles dias, qualquer coisa o puxava mais para a menina de sete anos. Não partilhavam tanto tempo desde que ele deixara de viver com a mãe dela. Ao longo de todo o mês de Março de 2009, fora buscá-la à escola- a mãe apanhava-a ao fim do dia e conduzia-a para o andar que alugara na Maia. Em Abril, levara-a uma semana ao Algarve. Naquela semana de Maio, já tinham jantado juntos.
Cruzaram a porta do prédio. João deu o lanche à criança, ajudou-a a fazer os deveres e tratou de preparar o jantar. Maria João sentou-se no sofá, deliciada com um DVD da Barbie. Quando a boneca mais popular do mundo se calou, a menina desejou um livro. A ultimar o jantar, o pai incentivou-a a lê-lo sozinha. Não tardou a chamá-la para comer. Maria João correu para a casa de banho – sorriso sempre posto. Saiu com as mãos limpas e secas. Trazia ao pescoço o cinto do roupão que o pai lhe dissera ser um cachecol do Futebol Clube do Porto. Abraçou-o: “Gosto muito de ti! Quero estar sempre ao teu lado.”
Ele sentou-se no sofá. E ela deitou-se, de bruços, com a cabeça voltada para um lado, os pés sobre os joelhos dele, as pontas do cinto nas costas. Ele recordou cada detalhe – na semana passada – numa sala de audiências do Tribunal de Matosinhos, num tom baixo: “Inclinei-me e puxei as pontas do cinto. Ela estrebuchou um pouco, mas não gritou.”
Agora, não consegue explicar o que às 20h15 de 28 de Maio de 2009 o levou a puxar as pontas daquele cinto. Agora, só consegue dizer que sim, que é verdade. Puxou-as com força quatro minutos. Até a filha parar – de estrebuchar, de respirar. No media player, no computador, tocava: Tu levaste a minha vida, de Tony Carreira.
Tu levaste a minha vida
E a vontade de viver
Só deixaste no meu peito
Pobre coração desfeito
Que não sabe mais bater
Tu levaste a minha alma
Só meu corpo está aqui
Todo o resto foi contigo
Hoje tento e não consigo
sequer mandar em mim
Quero voltar Amar
Quero deixar de andar
Assim tão à deriva
Quero encontrar alguém
Mas nem isso já sei
Pois tu levaste a minha vida
contigo
Cobriu o corpo da filha com um lençol. Deixou apenas a cabeça descoberta. Como se dormisse. Havia reunião de condomínio. João evitou os vizinhos. Desceu até à garagem. Depositou as chaves na caixa de correio. Apanhou o autocarro até à Rua da Constituição, uma das principais artérias do Porto. Dali caminharia, quilómetros, até à praia do Cabedelo, já em Gaia.
Costumava entregar a miúda às 21h00. Rosa, a mãe, estranhou a demora. João ligou-lhe, mas ela não ouviu. Ele ligou para uma das filhas dela, inventou que houvera um acidente, que ficara preso no trânsito. Vagueava. Enviou uma mensagem às 22h27: “Não posso deixar a minha filha a viver neste mundo sem o pai, sem amor! Juras falsas! Ironia do destino; ainda te amo.” Rosa não percebeu. Pensou que ele falava das juras de amor eterno que ela lhe fizera no casamento.
Às 22h31, Rosa mandou-lhe uma mensagem: “A que horas chega a menina? Ela tem aulas!” Às 22h35, ele retorquiu: “Ta a descansar eternamente, com os anjos.” (sic) E ela pensou: “Adormeceu!” Só às 22h52 ele lhe ligou a pedir que fosse para o apartamento, que a polícia já lá estava. Havia meses que ela não lhe ouvia a voz: a relação azedara demasiado – comunicavam só por SMS. “Pensei que ele a tinha violado. Nunca imaginei a morte”, contou ela, esta semana, no tribunal.
João telefonara para o Instituto Nacional de Emergência Médica às 22h11 a anunciar que tinha matado a filha, que não aguentava estar longe dela, que deixara a chave na caixa de correio. A PSP precipitou-se para o apartamento: a música de Tony Carreira continuava a ouvir-se. Quando Rosa chegou, não a deixaram entrar. Desviaram-na para a esquadra. Foi lá que uma psicóloga soltou a bomba. “Ainda hoje não acredito.”
No apartamento, a perita do Instituto Nacional de Medicina Legal Maria José Pinto da Costa declarou o óbito. Entretanto, lá fora, João, ao telefone com a Polícia Judiciária, ameaçava suicidar-se. E os inspectores tentavam demovê-lo, localizá-lo, detê-lo. Num SMS escreveu: “Sou um monstro.” Forneceu pistas falsas. Chegou a tirar os sapatos e o telemóvel e a atirar-se à água. Foi detido às 4h00.
O que terá conduzido àquilo? “Não tenho explicação. Eu ia suicidar-me sozinho, nunca tinha pensado em matar a menina. Gostava muito dela”, declarou. Muito menos sabe explicar Rosa, que não o quis ouvir depor e nem quis que ele a ouvisse depor na quinta-feira: “O amor que unia aquele pai e aquela filha era tanto!”
Rui Abrunhosa Gonçalves, especialista em psicologia da justiça, admite a hipótese de homicídio altruísta: “O indivíduo mata para poupar o outro ao sofrimento, o que revela uma perturbação grave.” Um divórcio pode desorganizar uma vida, lembra o também psicólogo criminal Carlos Poiares. Um indivíduo pode não gerir bem a ruptura. Autocentrar-se…
A perícia médico-legal psiquiátrica concluiu que João sofria de uma depressão com ideação suicidária: descompensado, mas imputável.
“Ver o monstro que sou!”
Rosa e João conheceram-se em Setembro de 1999. Sentiam-se tão bem um com o outro que confiavam que se completavam. Ela nasceu em Entre-os-Rios e ele em Ponte de Lima: casaram-se a 8 de Janeiro de 2001, na Igreja de Santa Luzia, em Viana do Castelo. Rosa trazia duas filhas. João não a pressionou a ter uma filha que fosse de ambos. Tratava as dela como se fossem dele. E não fez qualquer distinção quando Maria João nasceu, a 15 de Abril de 2002. As tarefas domésticas dividiam-se com naturalidade. Cheirava a Primavera dentro de casa. Mas em Fevereiro de 2007, o Inverno entrou e entranhou-se. João ficava a ver televisão até tarde, deixava-se estar no sofá da sala. A mulher levantava-se às duas ou às três da manhã e perguntava-lhe: “Não vens para o quarto?” Ele respondia-lhe: “Gosto de estar aqui.” Primeiro, ela julgou que era uma fase. Depois, convenceu-se de que ele já não a desejava.
Rosa lembra-se de lhe perguntar se estava doente e de ele dizer que não. Lembra-se de lhe perguntar se ele tinha outra e de ele lhe responder que não. João afastava-se cada vez mais. Já nem ia com elas visitar a família de Rosa. Tão-pouco as levava a visitar a família dele. A mulher é tolerante – esforça-se por sê-lo. Mas essa tolerância tem limites impostos pelo seu amor-próprio. Não queria estar ao lado de um homem que não queria estar ao lado dela. E revoltava-a ver que ele se desleixara, que deixara de desempenhar qualquer tarefa doméstica. “És um hóspede dentro desta casa?! Isto não é um casamento! Se já não gostas de mim, é melhor cada um ir para seu lado.” João virou o bico ao prego: “Tu tens é outra pessoa!”
Falaram pela primeira vez em divórcio no final de Julho. João não queria separar-se da mulher nem da filha. Ameaçou suicidar-se. Uma vez, ligou-lhe a dizer que “já estava pendurado na ponte da Arrábida”.
Mas o amor perdia-se dentro dela. E ela não o via lutar. Via-o acomodado à ideia de que ela o amaria, acontecesse o que acontecesse. Decidiram-se pelo divórcio em Agosto. Em Setembro, estavam divorciados sem que ele abandonasse o apartamento que tinham comprado em 2004. Era como se tudo não passasse de uma birra dela. Ele saiu da conservatória a dizer: “Amanhã estamos cá outra vez.”
As discussões avinagraram. O insulto soltou-se. Uma noite, estavam no sofá, ele ofereceu-lhe dinheiro em troca de sexo. Ela ficou ofendidíssima. Não o queria mais em casa. Que lhe importava que não tivesse sítio? Arrumou as coisas dele e meteu-as nos arrumos – na garagem.
João não sabia onde se enfiar. Enfiou-se na garagem até arranjar um sítio digno para viver e para receber a filha. O tribunal atribuíra a guarda à mãe e um fim-de-semana de 15 em 15 dias ao pai. Rosa deu-lhe mais. Uma vez por semana, ele ia buscar a criança para jantar.
A ex-mulher sabia-o perturbado. Ele metera na cabeça que ela arranjara outro e reagia como se isso lhe dissesse respeito. Exigiu-lhe dinheiro: gastara três mil euros com as filhas dela e queria que ela lhos pagasse – porque ele tinha de os devolver a quem lhos emprestara. Ela não os tinha? Deixava de lhe pagar os 250 euros de pensão de alimentos. Ela afligiu-se: tinha apenas um salário e três filhas para criar. Ao fim de seis meses, Rosa explodiu: “Ou pagas a pensão de alimentos, ou faço queixa de ti.”
Um dia, uma das miúdas não teve aulas à tarde e resolveu ir a casa. Apanhou João a tentar abrir a porta. Rosa sentiu-se invadida. Ele copiara a chave? Entrava em sua casa sem ela convidar? “De um momento para outro, arranjei uma casa na Maia. Ele regressou ao apartamento.” Tudo se quebrara. Lembra-se de ele telefonar exaltado a dizer que queria falar com ela. Lembra-se de se encontrar com ele na entrada do seu prédio e de o ouvir ameaçar: “Vou-te matar. Vais ver o monstro que eu sou!” E da filha, que ela trazia ao colo, se agarrar ao seu pescoço: “Mãe, vamos embora, não quero que morras.”
Quinze dias antes de morrer, Maria João puxou a mãe para o sofá, passou-lhe a mão pela cabeça: “Quero ter uma conversa contigo. Quero que saibas que as crianças também morrem.” “Vais crescer e vais ser veterinária”, repudiou a mãe. “Se eu morrer, quero que sejas feliz com as manas. Se tu morreres, eu vou ser feliz com o pai e com as manas.”
Ninguém sabia, mas o pai estava desempregado. Um manto negro abatera-se sobre ele – assim lhe parecia. Todo o deprimido tem uma visão negativa do eu, uma visão negativa do mundo, do futuro, salienta Carlos Braz Saraiva, responsável pela Consulta de Prevenção de Suicídio nos Hospitais da Universidade de Coimbra.
Terá João querido vingar-se da ex-mulher? Terá João querido livrar a filha do sofrimento causado pela sua ausência? Matar um filho com ideia de o poupar é raro, não inédito. Em Setembro de 2007, uma mulher de Viseu matou os dois filhos (de oito e de 11 anos) antes de se suicidar: tinha um tumor na cabeça, ficou deprimida, apavorada com a ideia de morrer e de os deixar. Braz Saraiva lembra-se de um homem que matou o filho adormecido antes de se tentar “suicidar, primeiro, por esmagamento contra um camião, depois, dando um tiro no tórax”. Foi julgado. Consideraram-no inimputável. Meteram-no num hospital psiquiátrico. Fugiu. Matou-se. “Estas pessoas estão tão gravemente deprimidas que podem acreditar que o seu acto é piedoso. O que está em jogo é uma distorção cognitiva. Há um exagero na apreciação da realidade”, diz. A sociedade tem de estar atenta aos sinais: quem cogita pôr termo à vida emite-os – “70 por cento dos suicidas avisam, ao contrário do que se diz. Ninguém se suicida a partir do vazio.”
João aguarda o fim do julgamento no Estabelecimento Prisional do Porto. O homem alto, calvo, de 44 anos, já ali atentou contra a própria vida. Pode repetir, alerta Nuno Moreira, que fez mestrado sobre suicídio em meio prisional. “Tem de ser acompanhado. Está provado que reclusos com histórias de autolesão (cortes simples ou tentativas de suicídio) correm maior risco de se matar.”
Ana Cristina Pereira
Público
06/02/10