“Invictus” – love Madiba

•09/02/2010 • 4 Comentários

Aviso à navegação: eu tenho um fascínio por Nelson Rolihlahla Mandela. Lembro-me de ser miúda e de celebrar a sua libertação aos pinchos – apesar de na África do Sul ter tios e tias e primos e primas que viam no gesto do então presidente Frederik de Klerk uma ameaça.

O episódio foi transmitido em directo, por rádios e televisões, em todo o mundo. 11 de Fevereiro de 1990: Mandela apareceu no portão da Prisão Victor Verster com a sua mulher, Winnie, e o seu ideal de África do Sul multiracial – livre, após 27 anos de reclusão.

Tinha expectativas elevadas sobre “Invictus”, o novo filme de Clint Eastwood, baseado no livro “Conquistando o inimigo”, de John Carlin. Como é que Mandela (Morgan Freeman) se socorreu dos Springbooks (a selecção de râguebi) para unir um país à beira da desagregação?

Não reparei no Hyundai Getz de 2005 no cenário de 1995. Nem percebi os erros de râguebi. Tão-pouco o capitão da selecção, François Piennar (Matt Damon), me pareceu pouco convincente. Fiz como Clint Eastwood e Morgan Freeman: concentrei-me no lado humano de Madiba.

Saboreei cada detalhe tão pequeno e tão grande, como o esforço para tratar as pessoas pelo nome, o querer que os seguranças sorrissem ao afastar alguém, o perguntar a cada um pela respectiva família. Não consegui deixar de rir ao ouvir o chefe dos seguranças bradar que Mandela não era um santo. Uma das minhas frases favoritas dele é precisamente: “Não sou um santo, a não ser que pensem que um santo é um pecador que ainda não desistiu.”

Mas isto tudo acontece no primeiro ano de governação do homem que liderou como ninguém seria capaz de liderar a reconciliação interna e externa da África do Sul. Quem não viu que aproveite para ver também “Goodbye Bafana”, realizado por Bille August, com base no livro “Meu Prisioneiro, Meu Amigo”, de James Gregory. Foca a relação de Mandela (Dennis Haysbert) com James Gregory (Joseph Fiennes), o afrikaaner típico encarregado de o vigiar e de censurar as cartas por si recebidas e enviadas quando encarcerado em Robben Island, a famosa ilha-prisão.

acpereira

“Não posso deixar a minha filha a viver sem o pai!”

•07/02/2010 • 7 Comentários

João queria mesmo ver a filha. Para convencer a ex-mulher, inventou uma viagem de 15 dias a Boliqueime – tinha que despedir-se. Foi buscá-la à Escola da Ermida às 17h30. Surpreendida, a criança correu para ele. Saltitou até ao apartamento que tão bem conhecia – vivera grande parte da sua vida naquele quarto andar, em São Mamede de Infesta, Matosinhos.

Por aqueles dias, qualquer coisa o puxava mais para a menina de sete anos. Não partilhavam tanto tempo desde que ele deixara de viver com a mãe dela. Ao longo de todo o mês de Março de 2009, fora buscá-la à escola- a mãe apanhava-a ao fim do dia e conduzia-a para o andar que alugara na Maia. Em Abril, levara-a uma semana ao Algarve. Naquela semana de Maio, já tinham jantado juntos.

Cruzaram a porta do prédio. João deu o lanche à criança, ajudou-a a fazer os deveres e tratou de preparar o jantar. Maria João sentou-se no sofá, deliciada com um DVD da Barbie. Quando a boneca mais popular do mundo se calou, a menina desejou um livro. A ultimar o jantar, o pai incentivou-a a lê-lo sozinha. Não tardou a chamá-la para comer. Maria João correu para a casa de banho – sorriso sempre posto. Saiu com as mãos limpas e secas. Trazia ao pescoço o cinto do roupão que o pai lhe dissera ser um cachecol do Futebol Clube do Porto. Abraçou-o: “Gosto muito de ti! Quero estar sempre ao teu lado.”

Ele sentou-se no sofá. E ela deitou-se, de bruços, com a cabeça voltada para um lado, os pés sobre os joelhos dele, as pontas do cinto nas costas. Ele recordou cada detalhe – na semana passada – numa sala de audiências do Tribunal de Matosinhos, num tom baixo: “Inclinei-me e puxei as pontas do cinto. Ela estrebuchou um pouco, mas não gritou.”

Agora, não consegue explicar o que às 20h15 de 28 de Maio de 2009 o levou a puxar as pontas daquele cinto. Agora, só consegue dizer que sim, que é verdade. Puxou-as com força quatro minutos. Até a filha parar – de estrebuchar, de respirar. No media player, no computador, tocava: Tu levaste a minha vida, de Tony Carreira.

Tu levaste a minha vida

E a vontade de viver

Só deixaste no meu peito

Pobre coração desfeito

Que não sabe mais bater

Tu levaste a minha alma

Só meu corpo está aqui

Todo o resto foi contigo

Hoje tento e não consigo

sequer mandar em mim

Quero voltar Amar

Quero deixar de andar

Assim tão à deriva

Quero encontrar alguém

Mas nem isso já sei

Pois tu levaste a minha vida

contigo

Cobriu o corpo da filha com um lençol. Deixou apenas a cabeça descoberta. Como se dormisse. Havia reunião de condomínio. João evitou os vizinhos. Desceu até à garagem. Depositou as chaves na caixa de correio. Apanhou o autocarro até à Rua da Constituição, uma das principais artérias do Porto. Dali caminharia, quilómetros, até à praia do Cabedelo, já em Gaia.

Costumava entregar a miúda às 21h00. Rosa, a mãe, estranhou a demora. João ligou-lhe, mas ela não ouviu. Ele ligou para uma das filhas dela, inventou que houvera um acidente, que ficara preso no trânsito. Vagueava. Enviou uma mensagem às 22h27: “Não posso deixar a minha filha a viver neste mundo sem o pai, sem amor! Juras falsas! Ironia do destino; ainda te amo.” Rosa não percebeu. Pensou que ele falava das juras de amor eterno que ela lhe fizera no casamento.

Às 22h31, Rosa mandou-lhe uma mensagem: “A que horas chega a menina? Ela tem aulas!” Às 22h35, ele retorquiu: “Ta a descansar eternamente, com os anjos.” (sic) E ela pensou: “Adormeceu!” Só às 22h52 ele lhe ligou a pedir que fosse para o apartamento, que a polícia já lá estava. Havia meses que ela não lhe ouvia a voz: a relação azedara demasiado – comunicavam só por SMS. “Pensei que ele a tinha violado. Nunca imaginei a morte”, contou ela, esta semana, no tribunal.

João telefonara para o Instituto Nacional de Emergência Médica às 22h11 a anunciar que tinha matado a filha, que não aguentava estar longe dela, que deixara a chave na caixa de correio. A PSP precipitou-se para o apartamento: a música de Tony Carreira continuava a ouvir-se. Quando Rosa chegou, não a deixaram entrar. Desviaram-na para a esquadra. Foi lá que uma psicóloga soltou a bomba. “Ainda hoje não acredito.”

No apartamento, a perita do Instituto Nacional de Medicina Legal Maria José Pinto da Costa declarou o óbito. Entretanto, lá fora, João, ao telefone com a Polícia Judiciária, ameaçava suicidar-se. E os inspectores tentavam demovê-lo, localizá-lo, detê-lo. Num SMS escreveu: “Sou um monstro.” Forneceu pistas falsas. Chegou a tirar os sapatos e o telemóvel e a atirar-se à água. Foi detido às 4h00.

O que terá conduzido àquilo? “Não tenho explicação. Eu ia suicidar-me sozinho, nunca tinha pensado em matar a menina. Gostava muito dela”, declarou. Muito menos sabe explicar Rosa, que não o quis ouvir depor e nem quis que ele a ouvisse depor na quinta-feira: “O amor que unia aquele pai e aquela filha era tanto!”

Rui Abrunhosa Gonçalves, especialista em psicologia da justiça, admite a hipótese de homicídio altruísta: “O indivíduo mata para poupar o outro ao sofrimento, o que revela uma perturbação grave.” Um divórcio pode desorganizar uma vida, lembra o também psicólogo criminal Carlos Poiares. Um indivíduo pode não gerir bem a ruptura. Autocentrar-se…

A perícia médico-legal psiquiátrica concluiu que João sofria de uma depressão com ideação suicidária: descompensado, mas imputável.

“Ver o monstro que sou!”

Rosa e João conheceram-se em Setembro de 1999. Sentiam-se tão bem um com o outro que confiavam que se completavam. Ela nasceu em Entre-os-Rios e ele em Ponte de Lima: casaram-se a 8 de Janeiro de 2001, na Igreja de Santa Luzia, em Viana do Castelo. Rosa trazia duas filhas. João não a pressionou a ter uma filha que fosse de ambos. Tratava as dela como se fossem dele. E não fez qualquer distinção quando Maria João nasceu, a 15 de Abril de 2002. As tarefas domésticas dividiam-se com naturalidade. Cheirava a Primavera dentro de casa. Mas em Fevereiro de 2007, o Inverno entrou e entranhou-se. João ficava a ver televisão até tarde, deixava-se estar no sofá da sala. A mulher levantava-se às duas ou às três da manhã e perguntava-lhe: “Não vens para o quarto?” Ele respondia-lhe: “Gosto de estar aqui.” Primeiro, ela julgou que era uma fase. Depois, convenceu-se de que ele já não a desejava.

Rosa lembra-se de lhe perguntar se estava doente e de ele dizer que não. Lembra-se de lhe perguntar se ele tinha outra e de ele lhe responder que não. João afastava-se cada vez mais. Já nem ia com elas visitar a família de Rosa. Tão-pouco as levava a visitar a família dele. A mulher é tolerante – esforça-se por sê-lo. Mas essa tolerância tem limites impostos pelo seu amor-próprio. Não queria estar ao lado de um homem que não queria estar ao lado dela. E revoltava-a ver que ele se desleixara, que deixara de desempenhar qualquer tarefa doméstica. “És um hóspede dentro desta casa?! Isto não é um casamento! Se já não gostas de mim, é melhor cada um ir para seu lado.” João virou o bico ao prego: “Tu tens é outra pessoa!”

Falaram pela primeira vez em divórcio no final de Julho. João não queria separar-se da mulher nem da filha. Ameaçou suicidar-se. Uma vez, ligou-lhe a dizer que “já estava pendurado na ponte da Arrábida”.

Mas o amor perdia-se dentro dela. E ela não o via lutar. Via-o acomodado à ideia de que ela o amaria, acontecesse o que acontecesse. Decidiram-se pelo divórcio em Agosto. Em Setembro, estavam divorciados sem que ele abandonasse o apartamento que tinham comprado em 2004. Era como se tudo não passasse de uma birra dela. Ele saiu da conservatória a dizer: “Amanhã estamos cá outra vez.”

As discussões avinagraram. O insulto soltou-se. Uma noite, estavam no sofá, ele ofereceu-lhe dinheiro em troca de sexo. Ela ficou ofendidíssima. Não o queria mais em casa. Que lhe importava que não tivesse sítio? Arrumou as coisas dele e meteu-as nos arrumos – na garagem.

João não sabia onde se enfiar. Enfiou-se na garagem até arranjar um sítio digno para viver e para receber a filha. O tribunal atribuíra a guarda à mãe e um fim-de-semana de 15 em 15 dias ao pai. Rosa deu-lhe mais. Uma vez por semana, ele ia buscar a criança para jantar.

A ex-mulher sabia-o perturbado. Ele metera na cabeça que ela arranjara outro e reagia como se isso lhe dissesse respeito. Exigiu-lhe dinheiro: gastara três mil euros com as filhas dela e queria que ela lhos pagasse – porque ele tinha de os devolver a quem lhos emprestara. Ela não os tinha? Deixava de lhe pagar os 250 euros de pensão de alimentos. Ela afligiu-se: tinha apenas um salário e três filhas para criar. Ao fim de seis meses, Rosa explodiu: “Ou pagas a pensão de alimentos, ou faço queixa de ti.”

Um dia, uma das miúdas não teve aulas à tarde e resolveu ir a casa. Apanhou João a tentar abrir a porta. Rosa sentiu-se invadida. Ele copiara a chave? Entrava em sua casa sem ela convidar? “De um momento para outro, arranjei uma casa na Maia. Ele regressou ao apartamento.” Tudo se quebrara. Lembra-se de ele telefonar exaltado a dizer que queria falar com ela. Lembra-se de se encontrar com ele na entrada do seu prédio e de o ouvir ameaçar: “Vou-te matar. Vais ver o monstro que eu sou!” E da filha, que ela trazia ao colo, se agarrar ao seu pescoço: “Mãe, vamos embora, não quero que morras.”

Quinze dias antes de morrer, Maria João puxou a mãe para o sofá, passou-lhe a mão pela cabeça: “Quero ter uma conversa contigo. Quero que saibas que as crianças também morrem.” “Vais crescer e vais ser veterinária”, repudiou a mãe. “Se eu morrer, quero que sejas feliz com as manas. Se tu morreres, eu vou ser feliz com o pai e com as manas.”

Ninguém sabia, mas o pai estava desempregado. Um manto negro abatera-se sobre ele – assim lhe parecia. Todo o deprimido tem uma visão negativa do eu, uma visão negativa do mundo, do futuro, salienta Carlos Braz Saraiva, responsável pela Consulta de Prevenção de Suicídio nos Hospitais da Universidade de Coimbra.

Terá João querido vingar-se da ex-mulher? Terá João querido livrar a filha do sofrimento causado pela sua ausência? Matar um filho com ideia de o poupar é raro, não inédito. Em Setembro de 2007, uma mulher de Viseu matou os dois filhos (de oito e de 11 anos) antes de se suicidar: tinha um tumor na cabeça, ficou deprimida, apavorada com a ideia de morrer e de os deixar. Braz Saraiva lembra-se de um homem que matou o filho adormecido antes de se tentar “suicidar, primeiro, por esmagamento contra um camião, depois, dando um tiro no tórax”. Foi julgado. Consideraram-no inimputável. Meteram-no num hospital psiquiátrico. Fugiu. Matou-se. “Estas pessoas estão tão gravemente deprimidas que podem acreditar que o seu acto é piedoso. O que está em jogo é uma distorção cognitiva. Há um exagero na apreciação da realidade”, diz. A sociedade tem de estar atenta aos sinais: quem cogita pôr termo à vida emite-os – “70 por cento dos suicidas avisam, ao contrário do que se diz. Ninguém se suicida a partir do vazio.”

João aguarda o fim do julgamento no Estabelecimento Prisional do Porto. O homem alto, calvo, de 44 anos, já ali atentou contra a própria vida. Pode repetir, alerta Nuno Moreira, que fez mestrado sobre suicídio em meio prisional. “Tem de ser acompanhado. Está provado que reclusos com histórias de autolesão (cortes simples ou tentativas de suicídio) correm maior risco de se matar.”

Ana Cristina Pereira
Público
06/02/10

Comove-me este cartaz

•05/02/2010 • 4 Comentários

Movimento emigratório actual comparado ao da década de 60

•03/02/2010 • 1 Comentário

O presidente da Comissão de Especialidade de Fluxos Migratórios, Manuel Beja, julga que é preciso recuar até à década de 1960 para encontrar uma vaga de emigração tão grande em Portugal. “É plausível”, admite João Peixoto, da Universidade Técnica de Lisboa. Jorge Malheiros, do Centro de Estudos Geográficos, acha que não.

Ninguém sabe ao certo quantas pessoas estão a virar as costas. Portugal, como quase todos os membros da UE, não faz inquérito de saída. A única hipótese é coligir a estatística dos países de destino, tarefa que o recém-criado Observatório de Emigração já iniciou. Mesmo assim, João Peixoto faz três ressalvas: as estatísticas tendem a não ser comparáveis; a recolha não distingue movimentos temporários de permanentes; e a oferta de emprego não é a que era antes da crise. Muito por força da livre circulação, a nova vaga está concentrada na UE, ou em territórios muito próximos, como a Suíça ou Andorra, nota a coordenadora do observatório, Filipa Pinho. Embora se desbrave caminho na Ásia e em África – com Angola à cabeça.

Manuel Beja dá o exemplo da Suíça. O contingente de cidadãos de nacionalidade portuguesa passou de 173.278 em 2004 para 196.186 em 2008. E, “no ano passado, entravam em média mil por mês”. Paradigmático, para Filipa Pinho, é o caso de Espanha: o número de pessoas nascidas em Portugal a residir no país vizinho passou de 71 mil para 136 mil entre 2004 e 2008. Manter-se-á? A taxa de desemprego entre trabalhadores portugueses a residir em Espanha subiu de 4,7 por cento no final de 2007 para 21,89 por cento no final de 2009, revelou o INE espanhol.

O exemplo do Reino Unido mostra outro aspecto: o número de nascidos em Portugal passou de 68 mil para 83 mil entre 2004 e 2008. A comunidade, porém, ultrapassa os 300 mil nas estimativas consulares de residentes de nacionalidade portuguesa. O que incluirá, atalha Jorge Malheiros, portugueses lusos, descendentes de emigrantes, ex-imigrantes e descendentes de ex-imigrantes.

A culpa não é só do desemprego, que já ultrapassa os 10 por cento, sublinha João Peixoto, que é também membro do Conselho Científico do Observatório da Emigração. Nos anos 90, Portugal vivia um período de crescimento e nem por isso deixou de ter emigração. A culpa é também do diferencial de rendimento entre os portugueses e os outros europeus. E de uma cultura de emigração.

Na década de 60 e na primeira metade de 70, chegavam a sair mais de 100 mil por ano. Por maior que seja a dimensão actual, para Malheiros, não faz sentido comparar. Não só por a geografia da mobilidade ser outra. Também pela forma. As emigrações já não são longas ou definitivas, mas temporárias – por vezes mesmo pendulares: “Nos anos 60, na teoria, a emigração era muito regulada. Agora, as pessoas têm direito a procurar trabalho noutros países da UE. Muitas vezes, saem para prestar serviços específicos e de duração limitada – na construção civil, no turismo, na agricultura. O mercado é muito flexível.”

Ana Cristina Pereira
Público
03/02/10

Réfane III

•03/02/2010 • Deixe um Comentário

Terceira de uma série de fotos por mim tiradas em Réfane, no Senegal/Ana Cristina Pereira.

Réfane II

•02/02/2010 • 3 Comentários

Segunda de uma série de fotos por mim tiradas em Réfane, no Senegal/Ana Cristina Pereira.

Isto é falar

•01/02/2010 • 5 Comentários

“Morre-se de amor. Também se morre dessa doença cruel e implacável, que a sociedade moderna criou e parece não estar muito preocupada em exterminar – o desprezo pelos outros.”

Armando Baptista-Bastos
jornalista e escritor português

Réfane I

•01/02/2010 • 2 Comentários

Primeira de uma série de fotos por mim tiradas em Réfane, no Senegal/Ana Cristina Pereira.

Uma cadeia só para pessoas transgénero

•30/01/2010 • 9 Comentários

Espinoza tem formas arredondas, cabelos longos, seios fartos e pénis. Uma vez por semana, quem com ela dividia a cela forçava-a a andar com os seios à mostra. Nem só os companheiros de reclusão a sujeitavam a práticas humilhantes. Os guardas prisionais não a deixavam usar soutien na hora de sair da cela para mudar de uniforme – obrigavam-na a sair apenas com uma toalha enrolada na cintura, como faziam com os homens. A algazarra num instante se instalava. “Ei, vaca!”, gritava um. “Olha este gajo tem tetas!”, gritava outro. E riam-se. Riam-se dela.

Teve consequência a história da nicaraguense que fugiu para os Estados Unidos para adequar o corpo à mente e foi apanhada pelos serviços de imigração sem autorização de residência e posta numa prisão a aguardar o afastamento do território nacional. Espinoza e outras transgénero fizeram queixa ao conselho de supervisores daquela cadeia do condado de Sacramento, no estado da Califórnia. Dali haveria de resultar processos legais de segregação.

A activista portuguesa Eduarda Santos (autora do blogue http://www.transfofa.blogspot.com/) já leu inúmeros relatos de “discriminação e assédio sexual” como este. E é a pensar neles que vê com bons olhos a iniciativa de Itália: o país inaugurará em Março, no município de Empoli, na Toscana, uma pequena prisão exclusiva para pessoas transgénero.

Por (quase) todo o mundo o problema coloca-se de forma mais (ou menos) assumida. A prisão está pensada para homens e para mulheres e há pessoas que não encaixam nesse sistema binário, resume Sérgio Vitorino, da Panteras Rosa – Frente de Combate à LesBiGayTransfobia.

Aparentemente baralhada, a imprensa argentina, por exemplo, noticiou em tempos a história de uma suposta mulher que “fingia” ser um homem: “A peruana insiste em defender sua identidade como homem e reivindica a sua permanência numa prisão masculina.”

Há quem tenha a identidade de um género e a documentação de outro – uma cabeça de rapariga num corpo de rapaz ou uma cabeça de rapaz num corpo de rapariga. A pessoa pode iniciar um processo de mudança de sexo e, nesse caso, percorrer um longo caminho – anos de consultas de psiquiatria, anos de tratamento hormonal, anos de intervenções cirúrgicas.

Pode até ser mais complexo do que isso, lembra a activista portuguesa Jó Bernardo. Nem todos os transgénero ambicionam submeter-se à cirurgia de reatribuição de sexo. Alguns não querem ou não podem – por saúde, por dinheiro ou por mera forma de estar na vida ou no mundo. E há quem nem sequer esteja em trânsito. O estudo Os Cinco Sexos, publicado em 1993 na revista The Sciences por Anne Fausto-Sterling, docente de Biologia e Estudos de Género na Universidade de Brown, em Rhode Island, nos Estados Unidos, acrescenta três géneros aos dois clássicos masculino e feminino: o pseudo-hermafroditismo masculino, o pseudo-hermafroditismo feminino e o verdadeiro hermafroditismo.

A activista portuguesa Lara Crespo alegra-se com a notícia da cadeia exclusiva para transgénero: “As pessoas estão mais protegidas e podem ser acompanhadas. Se estiverem a fazer tratamento hormonal ou psiquiátrico, podem continuar. E até o podem iniciar lá.”

Maria Pia Giuffrida, responsável pela administração penitenciária na Toscana, assegurou à AFP que as obras estão quase concluídas. O antigo estabelecimento prisional feminino – com lugar para 30 pessoas – terá uma biblioteca, um horto, uma zona desportiva e um centro de estudos.

O projecto recebeu o aval da principal força da oposição, o Partido Democrata, e de diversos grupos de pessoas transgénero em Itália. “É uma boa notícia e é fruto de um trabalho conjunto entre os administradores e as associações como a Trans Genere, a Ireos e o Movimento pela Identidade de Género (MIT)”, explicou Aurélio Mancuso, presidente da Arcigay.

Há quem não encontre virtudes no projecto. Sérgio Vitorino lembra o debate sobre a separação ou integração escolar das crianças com necessidades especiais. A fundadora da A-Trans, Jó Bernardo, pensa na pretensão, há muito discutida, de criar uma cadeia para seropositivos em Cuba. Encontra na iniciativa italiana um “problema de socialização”. E critica: parece ser “mais fácil criar uma gaiola para meter os trangénero do que garantir a sua segurança e a sua dignidade”. O ideal, defende, seria criar uma ala especial dentro da cadeia.

Em Portugal, as transexuais M/F (masculino para feminino) ficam em cadeias de homens. Antónia (nome fictício) passou seis meses em prisão preventiva – no Montijo. Colocaram-na numa cela individual. Tomava banho depois de todos os outros reclusos e sob escolta de um guarda. Nunca se sentiu em risco de ser assediada ou mesmo violada.

Colocar estas pessoas numa cadeia afecta ao género com o qual se identificam pode não criar apenas um imbróglio jurídico. Pelo menos essa é a ideia que passa Regina Satariano, presidente do MIT, em declarações à AFP: “As mulheres presas não gostam de conviver com transexuais.” E, no fim, as transexuais acabam por ficar isoladas na mesma.

Não foi o que pensou o Supremo Tribunal britânico quando, em Setembro último, decidiu transferir uma transexual condenada a perpétua para uma prisão feminina. Considerou que mantê-la detida entre homens era uma violação do artigo 8 da Convenção Europeia dos Direitos do Homem. A. tinha 27 anos. Já iniciara tratamentos hormonais, já se submetera a depilação a lazer e a consultas de psiquiatria. Ela queria fazer a operação de mudança de sexo e para isso tinha de viver algum tempo como mulher.

Ana Cristina Pereira
Público
29/01/10

Isto é falar

•28/01/2010 • Deixe um Comentário

“La libertad individual no puede estar sujeta a debate: el Estado ha de garantizar y proteger los derechos de las mujeres y de las minorías -en este caso, de las minorías sexuales-, lejos de cualquier debate populista. Y debe confinar la discusión a términos científicos y sociales, ajenos ya no a la fe -Cristo jamás dio instrucciones sobre el aborto o el matrimonio homosexual.”

Jorge Volpi
escritor mexicano

Bob Marley – Redemption Song (letra)

•27/01/2010 • Deixe um Comentário

Old pirates, yes, they rob I;
Sold I to the merchant ships,
Minutes after they took I
From the bottomless pit.
But my hand was made strong
By the ‘and of the Almighty.
We forward in this generation
Triumphantly.
Won’t you help to sing
These songs of freedom? -
‘Cause all I ever have:
Redemption songs;
Redemption songs.

Emancipate yourselves from mental slavery;
None but ourselves can free our minds.
Have no fear for atomic energy,
‘Cause none of them can stop the time.
How long shall they kill our prophets,
While we stand aside and look? Ooh!
Some say it’s just a part of it:
We’ve got to fulfil de book.

Won’t you help to sing
These songs of freedom? -
‘Cause all I ever have:
Redemption songs;
Redemption songs;
Redemption songs.


Emancipate yourselves from mental slavery;
None but ourselves can free our mind.
Wo! Have no fear for atomic energy,
‘Cause none of them-a can-a stop-a the time.
How long shall they kill our prophets,
While we stand aside and look?
Yes, some say it’s just a part of it:
We’ve got to fulfil de book.
Won’t you help to sing
Dese songs of freedom? -
‘Cause all I ever had:
Redemption songs -
All I ever had:
Redemption songs:
These songs of freedom,
Songs of freedom.

Bob Marley – Redemption Song /Song of Freedom (música)

•26/01/2010 • Deixe um Comentário

Para uma Europa com futuro

•22/01/2010 • Deixe um Comentário

Só o presidente do Grupo de Reflexão sobre o Futuro da União Europeia, Felipe González, ouviu palmas enquanto ainda falava na conferência de lançamento do Ano Europeu Contra a Pobreza e a Exclusão Social, que ontem decorreu em Madrid: “A imigração é uma necessidade de médio e longo prazo, embora provoque emoções a curto prazo.”

José Luis Zapatero, presidente do Governo de Espanha, que este semestre preside à UE, puxara o tema. Para lutar contra a pobreza e a exclusão social “é obrigatório os países democráticos e avançados garantirem saúde e educação a todas as pessoas que vivem dentro das suas fronteiras, independentemente da sua condição legal”, dissera, minutos antes de González discursar.

Por quase toda a Europa se ouve protestar contra o fluxo migratório. O momento é crítico. Com a crise, oito milhões de empregos desapareceram do espaço comunitário. Zapatero está convencido de que as consequências seriam bem mais severas se não fosse o esforço extra da União e dos Estados-membros. A UE baseia-se num “modelo reconhecido”, com “instituições fortes”, com “instrumentos preciosos” que amorteceram a queda.

Foi sobre a sustentabilidade desse modelo social que González reflectiu ontem. O continente envelhece a olhos vistos. Daqui a 20 anos teremos menos 30 milhões de activos. “O problema não é a população que temos. O problema é: com a população que temos, como criar uma economia sustentável?” No seu entender, com um “mix de políticas demográficas.”

O antigo líder socialista julga que a UE tem de contar com os imigrantes, mas também com as mulheres no mercado de trabalho e no combate ao “declive demográfico”. “As empresas não contratam jovens mulheres por acharem que vão engravidar. Contratem-nas, sobretudo, se engravidarem.”

Um novo ciclo de políticas económicas e sociais abrir-se-á em 2010. O Ano Europeu contra a Pobreza é também o ano da Estratégia 2020, que substituirá a Estratégia de Lisboa, que vigora há dez anos e que ficou aquém do objectivo traçado – erradicar a pobreza. O documento já esteve em discussão pública e deverá ser votado na Cimeira da Primavera.

O presidente da Comissão Europeia, José Manuel Durão Barroso, explicou as linhas mestras nessa nova era. A Estratégia 2020 “perseguirá um objectivo claro: promover uma economia de mercado social mais verde, mais competitiva e mais inclusiva. Uma das principais metas será a criação de emprego. Temos de evitar por todos os meios uma recuperação sem emprego.”

Ainda na véspera, num jantar informal com jornalistas, o comissário Europeu do Emprego, dos Assuntos Sociais e da Igualdade de Oportunidades, Vladimir Spidla, confessara: “Se me perguntarem se a crise já terminou, terei de responder que não – claramente. Do ponto de vista económico, já há sinais de recuperação. Do ponto de vista social, não.”

“Os nossos esforços concentrar-se-ão no desemprego juvenil e no desemprego de larga duração – temos de evitar que um fenómeno de carácter cíclico se converta em estrutural”, adiantou Barroso. “Contudo, a “Europa 2020″ não poderá circunscrever-se às medidas mais tradicionais. Se o emprego é de um modo geral a melhor salvaguarda contra a pobreza e a exclusão social, para oito por cento dos europeus trabalhar não é suficiente para sair da pobreza. É inadmissível. O trabalho tem de ser uma via para sair da pobreza. Chegou a altura de encontrar um novo consenso político sobre isto”.

Ana Cristina Pereira, em Madrid

Público 22/01/10

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Testemunhos

Um terço dos portugueses sem meios para ter casa quente

•19/01/2010 • 10 Comentários

Apesar de Portugal ter um dos mais amenos climas, ou por causa disso, em nenhum outro país da União Europeia (UE) há tanta incapacidade de manter a casa quente. É o que sobressai da análise da taxa de privação material, um indicador que o Comité de Protecção Social criou para medir a exclusão social. Os dados foram ontem divulgados pelo Eurostat – a antecipar a conferência de abertura do Ano Europeu de Combate à Pobreza e à Exclusão Social, a acontecer quinta-feira, em Madrid, sob a orientação da Comissão Europeia e da presidência espanhola da UE.

A fórmula é nova. Implica constrangimento severo para três de nove capacidades: fazer face a despesas imprevistas; pagar uma semana de férias por ano fora de casa; honrar empréstimos; fazer uma refeição com carne ou peixe ou vegetal equivalente de dois em dois dias; manter a casa quente; ter uma máquina de lavar, uma TV a cores, um telefone ou um carro próprio.

 A taxa de privação material estava em 2008 nos 17 por cento, mas havia grande disparidade no espaço comunitário – quatro no Luxemburgo a 51 na Bulgária, um desvio muito mais acentuado do que o da taxa de risco de pobreza, que, embora também estivesse nos 17, oscilava entre os 26 na Letónia e os nove na República Checa. Portugal pontuava 23 numa e 18 noutra.

Dez por cento da população da UE não conseguia ter a habitação suficientemente quente. Portugal liderava esta falta (35 por cento), seguido de perto pela Bulgária (34). O problema quase não se colocava nalguns países frios, como a Noruega, a Suécia, a Estónia e o Luxemburgo (um). Era, no entanto, sério em Chipre (29), na Roménia (25), na Lituânia (22), na Polónia (20) e na Letónia (17), onde os termómetros também descem muito abaixo de zero.

“Isso é um indicador muito relevante para países frios”, advoga Edmundo Martinho, presidente do Instituto de Segurança Social. Parece-lhe ajuizado relativizá-lo por cá, embora nele caibam pessoas com orçamentos que não permitem grandes gastos de electricidade ou gás. Em Portugal, os edifícios nem eram construídos a pensar nos humores do Inverno – só há pouco o país avançou para a lareira, para o recuperador de calor, para o aquecimento central.

A distância da média europeia também se cava no não poder custear uma semana de férias fora de casa: 64 por cento dos portugueses não podiam fazê-lo, um valor só superado pela Roménia (76), pela Hungria (67) e por Malta (65), seguidos de perto pela Polónia (63), pela Lituânia (60) e pela Bulgária (59) – todos bem acima da média europeia (37).

A noção de privação parece alterar-se quando se olha para a capacidade de ter carro próprio. Neste campeonato, Portugal estava na média da UE: nove por cento. As maiores carências registam-se nos países do alargamento, que só há pouco tiveram acesso facilitado a esse tipo de bem.

A boa notícia emana da mesa. Quatro por cento dos portugueses não tinha hipótese de comer carne ou peixe ou o equivalente vegetariano a cada dois dias, quando a média europeia se situava nos nove. O sinal de alimentação equilibra alegra Edmundo Martinho, mesmo admitindo que por cá alimentos como o peixe não alcançam os preços de países sem pesca.

 A comparação europeia não envergonha o coordenador nacional do Ano Europeu do Combate à Pobreza: “Há valores que temos de baixar, mas a taxa de risco de pobreza na UE passou de 16 para 17 e nós baixámos para os 18.” A taxa de risco de pobreza tem como base o rendimento médio mensal por adulto equivalente – em 2007, ano ao qual reportam os rendimentos em análise, o limiar de pobreza em Portugal correspondia a 406 euros por mês.

A pobreza extrema é hoje a maior preocupação do planeta. Pelo menos assim ditam 71 por cento de 25 mil inquiridos entre Junho e Outubro de 23 países da Ásia, das Américas e da Europa. Com a crise, não há quem não preveja aumento. “Para os países desenvolvidos, é uma questão de postos de trabalho e de crescimento económico. Para muitos países pobres, é a dor lancinante de milhões de pessoas que passam fome e ficam doentes”, comentou o presidente do Banco Mundial, citado pela Reuters.

Ana Cristina Pereira/Público

19/01/10

Queixa das jovens almas censuradas: música – José Mário Branco

•18/01/2010 • 4 Comentários

Depois do poema de Natália Correia, a voz de José Mário Branco. Ideia da Marta e do Ricardo. Tudo para espantar medos.

acpereira