Comunidade de etnia cigana – Castro Marim (III)

•18/12/2009 • Deixe um Comentário

Terceira de uma série de três fotos por mim tiradas em São Bartolomeu, Castro Marim/Ana Cristina Pereira.

Comunidade de etnia cigana – Castro Marim (II)

•17/12/2009 • Deixe um Comentário

Segunda de uma série de três fotos por mim tiradas em São Bartolomeu, Castro Marim/Ana Cristina Pereira.

Comunidade de etnia cigana – Castro Marim (I)

•16/12/2009 • 1 Comentário

Primeira de uma série de três fotos por mim tiradas em São Bartolomeu, Castro Marim/Ana Cristina Pereira.

Striptease

•14/12/2009 • 6 Comentários

O meu pai chama-me “Coração matabu”. “Coração matabu” será “coração matou-te” em crioulo badiu. Pergunto-me: que diabo de canção era aquela que em criança tanto trauteava ao pedir/receber corações de galinha – que julgava investidos do poder de me fazerem boazinha?! Onde a terei ouvido?

Os meus irmãos chamam-me “Feidão”. “Feidão” significava feijão na linguagem inventada pela minha infância. Ainda agora, a palavra me traz um cheiro, um sabor, um jogo. Hum… Sopa de couve. O meu irmão mais velho a pescar todo o feijão que caíra no seu prato e a depositá-lo no meu prato.

Às vezes, os meus irmãos chamam-me “Chaga”. Uma ferida aberta? Uma fonte de maçada? Fecho os olhos. Cavalitas apressadas. Cicatrizes açucaradas. Lenha para acartar. Uvas para pisar. Batatas para juntar. Cócegas, cócegas, cócegas, riso, riso, riso. 

A minha irmã chama-me “Mana”. “Mana” foi a primeira palavra que disse. Estava na varanda da sala, descalça, dentro de um vestido branco – o polegar na boca, os olhos carregados de sono, o cabelo anelado. Ela era “a” tarefa. “Escolhera-a” mal a vira na maternidade.

Quem serei agora? Coração matabu? Feidão? Chaga? Mana? Ana. Ana como a minha avó Ana, que eu chamava “a avó gorda”. Às vezes, de coração doído, como se nele houvesse uma ferida aberta. Outras vezes, de coração sorriso, como se em frente a ele houvesse uma sopa de couve-galega com feijão vermelho.

Respondi (respondo) por outros nomes a outras vozes. Vozes de amores idos. “Raiozinho de sol”. “Pitufa”. “Basca”. Vozes de amizades que ficaram. “Metaleira”. “Jimmy”. “Mente despenteada”. “Cara de criança”. Vozes de trabalho. “Mafaldinha, a contestatária”. “Jornalista dos pobrezinhos e dos oprimidos”. Cada nome que nos é dado dirá um pouco sobre quem somos – ou fomos. E eu sou estes nomes todos, sou nenhum deles, sou todos os que virão.

acpereira

“Ainda há fututos como antigamente?”, pergunta o Miguel Carvalho, na sua Devida Comédia. Talvez, talvez.

http://adevidacomedia.wordpress.com/

Recomeçar após 40 anos de terrorismo doméstico

•13/12/2009 • 3 Comentários

 Tudo tinha de ser como ele queria. Tudo tinha de ser como ele dizia. E ele dizia que eu tinha toneladas de amantes. Era o homem da luz, era o homem do gás. Não podia desmenti-lo. Batia-me. Gritava: “Confessa!”

Faz este mês 60 anos que nasci. Faz em Fevereiro dois anos que vim para a casa-abrigo. Fui maltratada 40 anos. A primeira vez, casara havia pouco, estava grávida. Estávamos na cama, empurrou-me, caí. Desculpei-o. Quando uma mulher é nova, pensa: “É ciúme. Amanhã, será melhor.” Tivesse tido coragem para me libertar mais cedo! É difícil recomeçar a vida nesta idade.

Tinha vergonha. As pessoas que me conheciam sabiam que eu não fazia o que ele dizia. E as outras? Piorou com a idade. Piorou com o casamento dos filhos. Os filhos saíram de casa e eu ainda o aguentei mais oito anos. No fim, já não havia intervalos. Quase todos os dias me batia. No ano em que saí de casa, no espaço de duas horas, deu-me três tareias.

Quando saíamos, ficava atento, como se fosse uma ave de rapina. Olhava para alguém? Alguém olhava para mim? Não era senhora de cruzar a porta de casa. Só podia sair uma vez por mês para ir ao hipermercado – com ele. Isolou-me por completo. Até chegar a nem o telefone me deixar atender. Como nunca saía, as minhas amigas devem ter pensado: “Foi alguma coisa que eu disse. Zangou-se!”

Sempre que ele saía de casa, regressava carregado de desconfiança. Punha-se a ver se havia pegadas perto das portas, perto das janelas. Eu tinha saído? Alguém  tinha entrado? Não tinha sossego nem quando ele estava a trabalhar. Ele era estucador. Tinha uma empresa. Como trabalhava por conta própria, vinha a casa quando queria. Tantas vezes me assustou! Ele a chegar a casa, eu na casa de banho, ele a entrar e a afastar a cortina da banheira para ver se havia lá alguém.

Sempre me dera dinheiro para gerir a casa. Deixou de o fazer. Dizia que eu o dava aos amantes. Se quisesse comprar um par de meias, tinha de lhe pedir. Para ir ao médico, os meus filhos tinham de se impor. Controlava as compras. Contava as postas de bacalhau no congelador, por exemplo. Dizia que eu não podia dar dinheiro aos amantes, que lhes dava géneros.

Chegou a dar um tiro a um primo que entrou lá em casa duas vezes – um rapaz que tem idade para ser meu filho! Eu já tinha saído de casa. Era Dezembro. Ele esteve preso dois dias e foi internado na psiquiatria. Agora, anda no psiquiatra. O médico diz que ele tem uma psicose maníaco-obsessiva.

Os meus filhos querem que eu vá para ao pé deles – na zona de Lisboa e Vale do Tejo. Não posso, enquanto o meu ex-marido for vivo. Nem posso passar lá o Natal. Tenho medo que ele sonhe que estou lá. Se ele sonha que estou lá, não há sossego. Anda sempre a vigiar a casa dos filhos. Tudo isto é sofrimento.

Quando fugi, pedi ajuda à Associação Portuguesa de Apoio à Vítima e não ma quiseram dar por eu não ter apresentado queixa. Refugiei-me em casa dos meus filhos. E comecei a trabalhar num lar de idosos. Nunca tinha trabalhado fora. Ele nunca deixara. Essa nova vida durou pouco tempo. Ele dizia que me matava e que matava filhos e netos se eu não voltasse para casa. Ele disse ao meu filho mais novo: “Ou trazes a tua mãe para casa ou mato-te e mato os teus filhos.”

Apresentei queixa. A APAV mandou-me para a Associação de Defesa dos Direitos e dos Interesses das Mulheres. Ao menos, sinto-me segura, tenho o carinho de quem aqui trabalha – voluntárias, todas. As regras não me fazem diferença. Farão às mais novas. Já nem sei quantas passaram por aqui nestes dois anos. As histórias são todas diferentes. A base é a mesma: a mulher encarada como propriedade do homem.

Ele veio ao Porto por causa do divórcio. Já estou divorciada. Decorre o processo de divisão de bens. Ele achava que eu não tinha direito a qualquer bem. Não fosse isto, como seria? Ele preso, pelo que me fez, nunca foi. Alguma vez será? Só há cerca de um mês chegou a notificação referente ao processo-crime.

Ana Cristina Pereira, a partir de uma conversa com a vítima

Resto do trabalho no Público:

Casas-abrigo para mulheres e crianças não chegam para as encomendas

http://jornal.publico.clix.pt/noticia/13-12-2009/casasabrigo-para-mulheres-e-criancas-nao-chegam-para-as-encomendas-18400947.htm

Oitenta denúncias por dia

http://jornal.publico.clix.pt/noticia/13-12-2009/oitenta-denuncias-por-dia-18400973.htm

Pensões de alimentos por pagar disparam este ano

•10/12/2009 • Deixe um Comentário

O recurso ao Fundo de Garantia de Alimentos Devidos a Menores – que substitui os pais que por “absoluta incapacidade económica” deixam de pagar a pensão de alimentos aos filhos – não pára de subir. Nos primeiros dez meses do ano, entraram 3303 processos, mais 26 por cento do que em igual período no ano anterior.

José Gaspar, presidente do Instituto de Gestão Financeira da Segurança Social (IGFSS), que gere esta conta, valoriza o efeito da “divulgação”: há um ano e meio, um jornal publicou um artigo e “nos meses subsequentes muita gente procurou informação”. Mas procuradores contactos pelo PÚBLICO responsabilizam também a crise económica e financeira.

A procuradora Judite Babo, do Tribunal de Família e Menores de Gaia, já nem precisa de “ler as notícias para perceber que o desemprego está a subir”. Percebe-o ali mesmo, no seu gabinete. Quem sofre uma quebra de rendimento – cai no desemprego, esgota o subsídio de desemprego, o subsídio social de desemprego – pode pedir uma alteração da responsabilidade parental e ver a pensão ser reduzida ou até anulada. Só que muitos “não tomam essa iniciativa. Pensam: “Não posso pagar, o tribunal não me pode exigir aquilo que eu não posso pagar.” Mas pode.”

Perante a falha no pagamento, o tribunal pode descontar a pensão num rendimento proveniente de uma renda, por exemplo, explica o procurador Manuel Santa, do Tribunal de Família e Menores do Porto. Não havendo esse rendimento, “solicita à Segurança Social que faça um inquérito sobre as necessidades” da criança. Se o rendimento do agregado for inferior a um salário mínimo por pessoa, pode accionar o Fundo de Garantia de Alimentos Devidos a Menores.

Desde que o fundo foi criado, em 2000, o número de processos tem crescido de forma gradual. José Gaspar fala em 2002 como o primeiro em que “o fundo teve alguma expressão” (1056 casos) e de um crescimento posterior que oscilou entre os “15 e os 26 por cento”.

O mapa de evolução financeira é revelador (ver gráfico). Em 2002, o Estado gastou 1,8 milhões de euros no pagamento de pensões de alimentos. O ano passado gastou 14,1. Nos primeiros dez meses deste ano, 16,1.

De acordo com a lei, a prestação pode alcançar um valor máximo de 408 euros. O valor médio, este ano, é de 145,08 euros.

O Norte tem estado à frente no mapa comparativo de processos. Somou 825 em 2006, 925 em 2007, 1335 em 2008 e 962 nos primeiros dez meses deste ano. Este ano, todavia, o Centro ganhou um inesperado protagonismo: 610 em 2006, 761 em 2007, 692 em 2008 e 912 de 1 de Janeiro a 20 de Outubro. “É um dado novo. Não sabemos explicá-lo, porque temos isto associado a nada”, assume José Gaspar.

Muitas variáveis se levantam. Desde logo, pedir ao Estado para substituir o progenitor em falta não é um dever, é um direito, salienta Edmundo Martinho, presidente do Instituto de Segurança Social. Cabe ao responsável legal pela criança ou ao Ministério Público requerê-lo ao tribunal.

Ainda há uns dias, o procurador Cel-so Manata, do Tribunal de Família e Menores de Lisboa, ouvia as queixas de uma mulher. “Ela dizia: “Ele não paga, não vale a pena fazer nada.”" Falou-lhe no fundo. “Vamos divulgando, mas há muita gente que não sabe que esta possibilidade existe”, diz.

A prestação – paga através do Centro Regional de Segurança Social – dura até o faltoso reunir condições para assumir a sua obrigação. “Quando puder tem de devolver o dinheiro”, atalha Edmundo Martinho.

 Ana Cristina Pereira/Público 10/12/09

Mais no site do Público:

O ex-marido de Marta não se pode aproximar dos filhos 

O namorado de Carina não reconhecia as duas filhas

Mano Chao – Clandestino (letra)

•09/12/2009 • Deixe um Comentário

Solo voy con mi pena
Sola va mi condena
Correr es mi destino
Para burlar la ley

Perdido en el corazón
De la grande Babylon
Me dicen el clandestino
Por no llevar papel

Pa’ una ciudad del norte
Yo me fui a trabajar
Mi vida la dejé
Entre Ceuta y Gibraltar

Soy una raya en el mar
Fantasma en la ciudad
Mi vida va prohibida
Dice la autoridad

Solo voy con mi pena
Sola va mi condena
Correr es mi destino
Por no llevar papel

Perdido en el corazón
De la grande Babylon
Me dicen el clandestino
Yo soy el quiebra ley

Mano Negra clandestina
Peruano clandestino
Africano clandestino
Marijuana ilegal

Solo voy con mi pena
Sola va mi condena
Correr es mi destino
Para burlar la ley
Perdido en el corazón
De la grande Babylon
Me dicen el clandestino
Por no llevar papel

Argelino clandestino
Nigeriano clandestino
Boliviano clandestino
Manu Negra ilegal

Mano Chao – Clandestino (música)

•05/12/2009 • Deixe um Comentário

É uma das mais fortes obras do músico que cresceu bilingue sob influência da cena punk. Apesar de datar de 1998, para mim, não passa.

acpereira

Um português no OEDT

•03/12/2009 • Deixe um Comentário

João Goulão foi hoje eleito presidente do Observatório Europeu da Droga e da Toxicodependência, sucedendo ao luxemburguês Marcel Reimen. Acontece quase a fechar o ano em que Portugal foi apontado por diversos organismos internacionais como um exemplo a seguir nesta matéria.

acpereira

Perigo de (re)produzir estereótipos (II)

•03/12/2009 • 3 Comentários

“Para lá (…) do medo de dar aos pobres uma má imagem, recuso-me a ignorar ou a minimizar a miséria que testemunhei, porque isso far-me-ia cúmplice da opressão.”

Phillipe Bourgois

Perigo de (re)produzir estereótipos (I)

•01/12/2009 • Deixe um Comentário

“O etnógrafo tem de reduzir e cristalizar um mundo de observação para produzir um retrato claro de uma comunidade.”
Fetterman (1998)

Também podemos ler ali “jornalista”.

Talvez este seja um bom mote para a conversa da próxima quinta-feira, às 21h45, na livraria do Centro de Artes e Espectáculos São Mamede, a convite do Gabinete de Imprensa de Guimarães.

acpereira

Mais uma

•29/11/2009 • 5 Comentários

Estou em casa, enroscada, no sofá. De repente, uma sms: “Mais uma! E 1 polícia! Estes gajos ‘tao tdos doidos?” Vou ver.

Uma mulher ferida acorreu à GNR de Montemor-o-Velho. Denunciou o marido. Os militares chamaram uma ambulância para a conduzir à perícia médico-legal. O marido perseguiu a ambulância, atravessou-se à frente dela. O condutor regressou. A ambulância parou junto à GNR. O marido matou a mulher, que tinha a filha de cinco anos ao colo. Já dentro do posto, disparou contra dois militares, matando um e ferindo outro.

Porque não foi a GNR logo identificar, deter e revistar o agressor? Porque não o interceptou quando ele perseguia a ambulância?  Porque não o neutralizou mal parou, ao pé da GNR? Porque só o revistou dentro do posto?

Esta história triste mostra uma realidade triste. Em muitos postos da GNR e em muitas esquadras da PSP, ainda há muito quem não veja um homem que agride uma mulher como uma verdadeira ameaça. A mulher entra aflita e alguns quase dão uma pancadinha nas costas do agressor.

Talvez estas mortes sirvam para despertar as autoridades para a necessidade de calcular melhor o risco.

acpereira

Pobreza zero: a cada três segundos morre uma criança à fome

•27/11/2009 • 1 Comentário

“De todos os homens que fazem parte da minha vida, nenhum será mais do que eu”

•25/11/2009 • 1 Comentário

Se é mulher, diz: “De todos os homens que fazem parte da minha vida, nenhum será mais do que eu”. Se é homem, diz: “De todos as mulheres que fazem parte da minha vida, nenhuma será menos do que eu”. Dizê-lo será integrar um coro que cruza os 22 países ibero-americanos. Objectivo da iniciativa: comprometer as sociedades na luta pela igualdade e contra a violência de género.

(…)

Qualquer cidadão pode aderir à campanha em duas línguas, que em Portugal conta com o jogador de râguebi António Aguilar. O movimento ambiciona congregar 150 milhões de pessoas e conta com um sítio na Internet (www.maltratozero.com). Quem quiser que o seu vídeo (ou foto) faça parte do movimento tem de entrar na secção “une-te”. “É um modo diferente de responsabilizar – social e colectivamente – todas as pessoas na denúncia da violência doméstica e na capacitação de promover a mudança”, diz o vice-presidente da CIG, Manuel Albano.

Ana Cristina Pereira/Público
25/11/09

26 mulheres mortas desde o início do ano

•24/11/2009 • 6 Comentários

Maria Graça inaugurou este ano a lista de mulheres mortas por homens com quem mantinham ou tinham mantido uma relação íntima. Foi esfaqueada, numa casa isolada, num pinhal. A União de Mulheres Alternativa e Resposta (UMAR) contou 25 este ano – quase metade de 2008. Há outra para a acrescentar à lista. Ao final da manhã de ontem, Maria Alice foi alvejada no centro histórico de Santarém.

Maria José Magalhães, a nova presidente da UMAR, tem os olhos postos na grelha construída a partir de notícias de jornal: “São dados ainda provisórios.” Quantas notícias podem ter escapado? Quantos dos 42 homicídios tentados podem ter-se convertido em homicídios consumados?

No ano passado, o Observatório de Mulheres Assassinadas (OMA) somou 45 homicídios consumados. Atendeu a descendentes directos e a outros familiares. Mortas por marido, companheiro ou namorado, ex-marido, ex-companheiro ou ex-namorado eram 40 – um pico sem explicação aparente: em 2007, foram 20; em 2006, 31; em 2005, 31; em 2004, 31.

Magalhães chama a atenção para o facto de algumas mulheres terem sido assassinadas depois de terem posto fim à relação (nove dos 25 homicidas encaixam na categoria de ex-marido, ex-companheiro ou ex-namorado). E para a idade das vítimas (seis com idades compreendidas entre 18 e 23 anos e 11 com idades compreendidas entre os 24 e os 35). Nalguns casos, havia queixa. “De algum modo, a sociedade não tem garantido a sua protecção”, interpreta.

Os números reflectem a atenção que os meios de comunicação social dão – ou não – ao fenómeno, haveria de comentar, por telefone, a secretária de Estado da Igualdade, Elza Pais. “A violência doméstica está mais visível e é mais intensa. As mulheres estão a reagir cada vez mais à violência e quando as reacções não são apoiadas podem suscitar retaliações que podem ter consequências extremas. A solução não é não fazer frente. A solução é fazer frente, pedindo ajuda.”

Marlene Matos, professora da Escola de Psicologia da Universidade do Minho, está de acordo: “Nos últimos 30 anos, as mulheres redefiniram o seu papel na sociedade e nas relações. Antes, só tinham deveres. Agora, também têm direitos. Têm direito, por exemplo, a serem valorizadas, a não serem menorizadas. Toleram menos as relações abusivas”.

O risco da indiferença

Atrás de Maria José Magalhães há um cartaz vermelho, rectangular: “Grita! Grita mais alto! Grita ainda mais alto para que os teus vizinhos te ouçam e possam gritar contigo. Para que todos e todas possamos gritar contra a violência sobre as mulheres e contra o homicídio conjugal.”

“A mentalidade está a mudar”, acredita o professora da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto. Até 2006, com alguma frequência, surgiam notícias dentro das quais cabiam vizinhos a atestar surpresa e a desculpar o agressor: “Ainda aparece um ou outro a dizer bem do agressor, mas já não é vulgar”. Agora, os vizinhos falam de queixas. Num dos casos, a GNR já lá fora três vezes e noutra sete.

“Cada vez há mais pessoas a apontar o dedo”, corrobora. Ainda é invulgar, porém, qualquer vizinho ou familiar denunciar um caso. Apesar de ser público, o crime tende a chegar às esquadras da PSP e aos postos da GNR pela boca das vítimas. Atoladas na ambivalência, muitas morrem sem antes pedir ajuda.

Na opinião de Maria José Magalhães, tem falhado a avaliação do risco: “É preciso levar os sinais e as ameaças a sério. Muitas vezes, as pessoas dizem: “Ela ameaçava, nunca pensei que chegasse a este ponto”. Há uma atitude de benefício ao agressor. Em caso de dúvida, é preciso pecar por excesso e por defeito, dar o benefício à vítima e não ao agressor”.

Marlene Matos também acha que “o risco nem sempre é realisticamente avaliado”. “A própria vítima nem sempre consegue avaliar o risco”, enfatiza. Tem de haver quem o faça por ela. Não é tudo: “Tem de haver uma punição associada a este comportamento. O número de condenações é muito baixo. Se calhar, quem pratica este tipo de crimes ainda não se sente punido ou vigiado”.

Sopram promessas de mudança. “A Secretaria de Estado está a fazer a monitorização das situações que acontecem”, adianta Elza Pais. “Quando os casos já estavam sinalizados tem de se ver o que falhou e chamar à responsabilidade”.

Deposita esperança na nova lei da violência doméstica, que entrou em vigor em Setembro e carece de regulamentação. Desde logo, porque “permite à polícia deter o agressor sem ser em flagrante delito, o que evita situações dramáticas de perigo iminente”. Há um alargamento do quadro jurídico.

24.11.2009/Ana Cristina Pereira/Público

ver mais em:

http://www.publico.pt/