Meninos de ninguém

Reconheci-o de imediato. Era um dos meninos de ninguém que eu tanto desejei que fossem de todos. Tinha 12 anos quando o conheci. Andava sempre com um miúdo dois anos mais velho. Passavam os dias a mendigar. Usavam uns mealheiros cilíndricos, coloridos. Escondiam-nos num buraco, cavado na relva, perto da Sé do Funchal.

Ainda me lembro do apartamento da família no Bairro das Malvinas. A sala era uma sucessão de colchões e um televisor. Naquele t4, moravam 17 pessoas. Dois irmãos estavam presos. Para a “pedincha” ainda saíam outros dois: um de 13 anos e outro de nove.

Nove anos mais tarde, ali estava ele, no pátio interior da ala k, no Estabelecimento Prisional do Funchal. Alertou logo o irmão mais novo e um outro antigo companheiro da “pedincha”. “Está aqui a jornalista que nos levou a jantar ao Galinha Dourada!”Ri-me. Andei tanto com aqueles miúdos que apanhei piolhos e o que lhe ficara fora a ida a uma churrasqueira.

Tomou corpo. É faxina do desporto. O técnico de reeducação elogia-lhe o sentido de justiça: “Ele sabe o que é certo e o que é errado, embora nem sempre use isso da melhor maneira.” Se um colega se alonga ao telefone, ele lembra-lhe que outros também querem falar.

Não se queixa do mundo murado em que vive. Tem voz. Tem função. Sente-se protegido. E depois? “Se você sabe que estive preso, fui toxicodependente, vai dar-me trabalho?” Fez esta pergunta, de várias formas, num debate que sucedeu a leitura de uma história infantil, fruto de uma parceria com a Biblioteca Pública Regional. Onde diabo estava a Justiça quando o único “crime” deste rapaz era ter nascido naquele família, naquele bairro?

Falhou o sistema de protecção de crianças e jovens em risco. Falhou o sistema de (re) educação de menores delinquentes. Sim, passou por vários centros educativos antes de cair ali. Esteve internado em Caxias, em Coimbra, na Guarda. Está bom de ver o que aconteceu.
“Roubos. Estrangeiros. Droga.”

P.S. Da outra vez, a história deu nome a um livro que tentou ser alerta. Agora, como então, queria esperança.

Ana Cristina Pereira

Diário de Notícias da Madeira

22 de Janeiro de 2012

Sobre meninosdeninguem

Ana Cristina Pereira/ jornalista do Público
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3 Respostas a Meninos de ninguém

  1. Mario Alves diz:

    “Onde diabo estava a Justiça quando o único “crime” deste rapaz era ter nascido naquele família, naquele bairro?”
    E porque sobrevivem “famílias daquelas”? Quem as apoia?
    Os meus pais eram analfabetos. Eu teria que ser forçosamente analfabeto?
    A desculpabilização e apologia da mediocridade é que “sustenta” “aquelas famílias” e promove o “crime” destes “inocentes”.
    Mas no fundo dá-nos jeito que existam. Eles são o sustento da “nossa” qualidade de vida.
    Permitem-nos escrever este tipo de artigos, tão elogiados por aqueles que não vivem essa realidades.

  2. meninosdeninguem diz:

    Imagino que os seus pais não o obrigavam a mendigar em vez de estudar, como aconteceu com este rapaz desde os seis anos. Imagino que não tivesse de entregar pelo menos dez euros todas as noites, sob pena de ser espancado e de ficar a dormir na rua. O que se questiona nesta crónica é por que não actuou o sistema de protecção de crianças e jovens em risco no devido tempo. Nem o sistema tutelar educativo. Ninguém nasce delinquente.

  3. Mario Alves diz:

    Mas também ninguém é obrigado a ser deliquente toda a vida. Ser delinquente não é uma necessidade, é uma opção, que, aceito, pode estra condicionada até uma determinada idade, mas a partir da maioridade é, reafirmo, uma opção de vida.

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